Existem duas formas para um par/grupo se apurar para o nacional de AG. A primeira - e mais desejada - é o apuramento directo no distrital, ou seja, quando um grupo (sénior) consegue ter uma soma de 49 pontos nos dois esquemas no distrital, isso significa que, independentemente da sua classificação, esse grupo tem participação garantida no nacional. Contudo, ter 49 de soma nos dois esquemas não é tarefa fácil e, com o meu trio lesionado, isto foi-me impossível de concretizar. Por isso, apenas me restava a outra alternativa: a prova qualificativa.
Dias depois do distrital, saiu na net a circular de prova e a informação de quantos trios estavam inscritos para a prova e, desses, quantos passavam. Portanto, dois trios tinham tido apuramento directo, quatro trios iam à qualificativa e, desses quatro, três deles - o pódio - passavam ao nacional. Isto era o que estava escrito no site oficial da FPTDA (Federação Portuguesa de Trampolins e Desportos Acrobáticos).
Durante as quatro semanas que separaram o distrital da qualificativa, eu só pensava em melhorar o esquema e ter mais dificuldade naquilo que fazíamos, tendo sempre em mente a lesão da minha volante. Escusado será dizer que, na última semana, os nervos estavam a tomar conta de mim. Mas eu simplesmente não podia deixar que isso se notasse, especialmente nos treinos. A minha intermédia andava pessimista e a minha volante receosa. Se eu, que aparentava confiança e descontracção - que tenho a certeza que estavam a irritar a Carla - deixasse escapar o meu nervosismo, de certo que o clima no trio seria comparável ao de um filme de terror.
Por isso, mesmo estando a morrer de nervos, eu lá consegui pôr um sorriso na cara e um ar confiante e, sábado de madrugada - ou seja, ontem - lá sai eu de casa, em direcção à casa da Carla para, de lá, seguirmos até ao estádio, local de encontro para sair para a Maia. Pessoal todo junto, divisões para as duas carrinhas feitas e siga para o norte.
Na carrinha, o clima de loucura e as altas gargalhadas eram, a meu ver, uma forma de esconder os nervos. Discussões por causa dos ganchos, da maquilhagem e das purpurinas - mon dieu, eu parecia o Edward Cullen quando exposto ao sol de tão brilhante que estava - lá conseguimos ter uma aparência minimamente para a prova. Após vários berros do tipo "ESTAMOS ATRASADAS, VASCO VAI MAIS DEPRESSA!" chegámos ao pavilhão mesmo em cima da hora para o período de aquecimento.
Depois de aquecer articulações e individuais de equilíbrio, fomos até ao praticável para aquecer as séries de mortais. Pedi à Carla para ficar ao lado enquanto eu fazia o meu primeiro mortal atrás do dia. Mas, como o praticável da prova salta quase o triplo do nosso, o meu mortal (4/4) passou a 5/4 e eu saí disparada para fora do praticável, batendo com o rabo no chão, mesmo ao lado da mesa de juízes. Isto começava bem.
Aquecimento feito, fomos dar os últimos retoques ao penteado e à maquilhagem, sempre atentas para ver quando eram os outros três trios - nós éramos as últimas a fazer esquema. Depois de várias gargalhadas nervosas devido aos comentários do JP, corpo direito, queixo para cima e vamos para prova. Apresentações, posição inicial, começa música e, com ela, começa esquema. Primeiro dinâmico: Duplo mortal à frente de estafa. A minha volante tremia como eu nunca vi e, pior, ela fez duplo sem sequer flectir as pernas.
No fim do esquema, estávamos realmente satisfeitas. As coisas tinham saído todas, a artística foi bastante boa e, quando o rank dos primeiros esquemas saíram, estávamos em primeiro. Portanto, metade dos nervos já tinham ido embora, mas agora faltava o esquema de equilíbrio que é onde se costuma errar menos. E nós tínhamos duas posições de risco, uma das quais falhou no aquecimento antes da prova.
Estávamos no praticável de aquecimento à conversa com o JP sobre a prova quando eu me lembrei de confirmar que eram os trios do pódio que passavam ao nacional. Contudo o JP apenas olhou para mim de lado e disse que falamos disso depois da prova. Eu pensei que era para não agoirar, já que tínhamos o primeiro lugar ao nosso alcance. Não liguei e fomos apresentar equilíbrio.
Primeira posição... feita. Sai asneira na coreografia seguinte. Série e segunda posição - o pino da Rita. Ela sobe para pino e marca. Um segunda, dois, três, descida para stalder, a posição estava feita! "Eu amo a tua volante!" foi o que disse à Carla quando a Rita estava em stalder. Descemos da posição, fizemos a coreografia, os individuais, mais uma asneira na coreografia, a posição final, a última coreografia e estava acabado.
Saímos do praticável, apresentámos aos juízes, satisfeitas e sorridente por ter corrido tão bem. Chegámos ao pé do JP e, então, ele resolve dizer-me que: "Eles enganaram-se nas contas para os apurados. Andaram a distribuir folhetos hoje de manhã a explicar quem é que passava e, dos trios, apenas o primeiro lugar passa!" Eu entrei em pânico ao ouvir isto. A prova estava feita, os notas prestes a serem lançadas e eu sabia que tinha feito asneira nos dois esquemas. Asneiras essas que naquele momento não podia remediar. E se elas nos custassem a prova? E se aquelas pequenas coisas em que não pensei durante o esquema fossem o que nos arrastaria para fora da época?
Mãos dadas, braços sobre os ombros e as cinturas umas das outras. Bastava-nos 22 pontos para o apuramento. Começam a sair as notas de artística e execução. Acreditem, se eu fosse religiosa, eu estaria a rezar naquele momento. E sai, finalmente, as notas finais. Vinte e três pontos de esquema de equilíbrio, quarenta a cinco de final, Rank: 1. Nós gritámos, sorrimos, abraçámo-nos, e só não houve lágrimas porque a adrenalina e os nervos não mo permitiram. O pódio era nosso, o campeonato nacional estava de portas abertas para nós.
Prova terminada, desfile de atletas, e somos chamadas ao pódio. Eu estava tão incrivelmente feliz que não consegui deixar de sorrir enquanto as ginastas do segundo e terceiro lugar nos cumprimentaram, nem quando a juíza chefe de painel nos entregou as medalhas. A minha primeira medalha da FPTDA por trio era ouro! Não podia estar mais feliz, satisfeita e orgulhosa de mim e do meu trio maravilhoso e perfeito.
No balneário as gargallhadas de alívio eram mais que muitas. Relembrar as asneiras e começar a pensar já no que fazer para o nacional. São cinco semanas de preparação e pelo meio temos a bela da queima das fitas. O que significa que, dessas cinco semanas, uma pré-prova e outra é ressaca todo o santo dia. Vai ser bonito, vais.
Nacional, espera por nós, carai!! :D
Just